segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Os quatro Pilares da Minha Readaptação - 1º Pilar - É preciso ter fé!



Em artigos anteriores eu disse que havia quatro pilares que sustentavam a minha readaptação como deficiente visual. Aliás, no decorrer do meu caminho diante da cegueira progressiva, nesta chamada “baixa visão” tão complicada de explicar, deparei-me também com este “Por quê?” que nos faz perplexos diante de uma limitação na nossa vida diária.

Ainda mais se temos uma fé religiosa, este “por quê” grita, e vai à procura de Deus para encontrar uma resposta a esta questão, que no início, parece não ter realmente qualquer resposta que nos possa consolar.

Eu sempre fui e sou uma crente em Deus. Desde muito criança, sempre tive este grande desejo de desenvolver o meu lado espiritual, encontrando na fé cristã católica, o meu espaço religioso.

Durante muitos momentos na minha vida deparei-me com situações que pareciam não ter qualquer resposta humanamente justa, mas que ao colocá-las diante de Deus, na fé, encontrei respostas.

Quando estamos neste limite entre crer e não crer, precisamos mesmo descobrir o que exatamente cremos.

Sim, porque termos fé em Deus, mesmo que fora de um ambiente religioso, depara-nos com esta interrogação: Por quê, comigo, meu Deus?

Esta pergunta é a pergunta de todo o crente que confronta Deus diante de algo que não compreende.

Esta pergunta não tem nada a haver com falta de fé em Deus.

Antes, esta pergunta faz-nos ter ainda mais fé em Deus.

Diante de uma dificuldade, o que geralmente fazemos é ir ao encontro do nosso melhor amigo e perguntar-lhe: - Porquê aconteceu isto comigo?

Se temos uma fé esclarecida em Deus, Nele encontramos este amigo verdadeiro, e por isso ousamos perguntar-lhe:

- Porquê aconteceu isto comigo?

É uma pergunta transformadora e digo isto de experiência própria.

É preciso que tenhamos esta coragem de perguntarmos a Deus, e colocarmo-nos, assim nos seus braços, como que nos braços de um verdadeiro amigo, quando se passa uma grande adversidade.

Quando temos fé em Deus, Este Deus é o nosso melhor amigo.

E por isso, a fé faz-nos perguntar a este nosso Melhor Amigo, o que nos indaga interiormente.

E assim, quando me deparei com a baixa visão, em que muitos dos meus projetos estavam a cair das minhas mãos por causa das minhas limitações, eis que fui até Deus e assim coloquei-me nas mãos Dele.

Há quem diga que Deus não responde às nossas perguntas ou talvez, o que realmente acontece é que não sabemos ouvir e nem queremos ouvir as Suas respostas.

Nem sempre as respostas de Deus são fáceis de ouvir.

Eu tenho um costume de ir à igreja e estar lá, mesmo que não esteja lá ninguém, especialmente quando estou a passar por momentos difíceis. Acreditem que já tive imensas surpresas espirituais nestes momentos de reflexão em que no silêncio e no vazio de mim mesma, desejo escutar o que Deus tem a me dizer. Este falar de Deus connosco, pode-se revelar no momento, ou então no decorrer do que se vive, pois Deus pode-nos falar interiormente, ou então por meio de acontecimentos ou de outras pessoas, por vezes, até por meio de pessoas desconhecidas. 


Por isso, este silêncio com Deus também é o momento em que se faz silêncio nas queixas, lágrimas e zangas.

Foi num desses momentos que uma espécie de frase foi partilhada. Já não me lembro muito bem como, mas foi esta frase que me fez novamente acreditar em mim e nas minhas potencialidades, mesmo passando por uma limitação que julgava intransponível, a cegueira progressiva.

"A pessoa humana vê a montanha, mas Deus vê para além da montanha!"

Quando ouvi esta frase, não compreendi muito bem o seu significado, mas acreditem que esta frase tem sido esperança viva na minha vida, ao longo deste percurso com baixa visão.

Sim, a baixa visão é esta montanha que parece a quem está a perder a visão, uma montanha enorme, alta demais para ser galgada por nós. Diante da cegueira progressiva, senti-me pequenina, frágil e quase que sem meios humanos para lidar com tamanha força devastadora.

Porém, para além desta montanha, há algo. E realmente este algo que a montanha parece esconder, é um desafio que nos fará crescer, e só Deus para nos levar a ver isso.

A deficiência visual não é o fim… Ah, ela quer que seja o fim, quer nos limitar e fazer-nos parar!!!!

É apenas uma montanha! Para além da montanha, e só depois de atravessarmos esta montanha, e até ouso dizer, que ainda estamos a atravessar a montanha, e já se vislumbra muito de um mundo novo de nós mesmos, que nunca descobriríamos se nos detivermos diante desta montanha da limitação visual.

A fé realmente permite-nos ver para além da montanha. Ter fé é acreditar naquilo que não se vê!

Por isso, a fé foi um destes pilares imprescindíveis na minha readaptação. Sem esta fé, tal percurso seria como que manco, sem todos os suportes, pelo menos para mim.

Já dizia o grande cientista Pascal: «com a fé, vejo mistérios; sem a fé, vejo absurdos»

Sim, diante da perda da visão, parece absurdo pensar-se que é possível continuarmos, desenvolver potencialidades, e seguir em frente.

Contudo, com a fé, todo este absurdo materializa-se em histórias reais que fui conhecendo neste novo mundo da baixa visão. Pessoas reais que hoje trabalham, realizam os seus projetos de vida e prosseguem, apesar das suas limitações físicas.


Pessoas como a escritora Manuela Silva que tive a oportunidade de conhecer no Dia Internacional das Bibliotecas que se comemorou no dia 1 de julho último, na Biblioteca de Gaia. Nesse dia, alguns autores apresentaram os seus livros, e foi assim que eu apresentei o meu livro “Bia por um Triz”, e a Manuela Silva apresentou o seu livro “Aprender a ser feliz”.

Como estive em mudança de casa, nos últimos dois meses, apenas na passada semana é que consegui ler este livro (na versão áudio para pessoas com deficiência visual): “Aprender a ser feliz” da autora Manuela Silva.

Este livro, por meio de uma história em forma de romance, provoca-nos com várias questões sobre a tal chamada deficiência e limitações que parecem montanhas intransponíveis.

“Aprender a ser feliz” provoca-nos porque segundo a autora, este deve ser o nosso objetivo de vida, e por isso, o livro conta a história de pessoas que aos olhos do mundo, poderiam estar extremamente limitadas fisicamente, e no entanto, estas pessoas são as que alavancam as suas vidas, rompendo preconceitos e tabus, pois existe muito mais para além da montanha da deficiência.

Para quem quiser adquirir este livro, deixo abaixo os contactos da autora, pois este livro é uma edição de autor e 10% da venda reverte em favor da FCD - Fraternidade Cristã dos Doentes Crónicos e/ou Deficientes Físicos.

Com a leitura deste livro pude contemplar mais uma vez que a montanha da deficiência é apenas uma montanha, e é preciso que estejamos preparados pois muito há para além desta montanha.

É preciso ter-se fé!



Para adquirir o livro "Aprender a ser feliz" contacte diretamente a Autora Manuela Silva: Telemóvel - 912 463 884
e-mail: manuelasilva1962@gmail.com
No Instagram - cantinho da Nela 

10% da venda do livro "Aprender a ser feliz" reverte em favor da FCD - Fraternidade Cristã dos Doentes Crónicos e/ou Deficientes Físicos. 

Fotos de Rosária Grácio.

A foto da capa do livro "Aprender a ser feliz" foi retirada do bibliografia.bnportugal.pt/

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Para saber mais como a Bengala Verde me ajudou e ajuda na minha readaptação como deficiente visual, convido-te a ver estes vídeos:


quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Os quatro pilares da minha readaptação como deficiente visual


Quando há cerca de uns sete anos atrás foi-me dito por um médico de oftalmologia que a minha doença retinose pigmentar estava a se manifestar rapidamente, e que caminhava a passos largos para a cegueira, deparei-me com um percurso que eu não estava à espera.

Sim, eu sabia que tinha uma doença hereditária que cedo ou tarde se manifestaria. O que não sabia era que esta doença iria se manifestar tão cedo, e exatamente quando parecia que estava a concretizar alguns dos meus grandes projetos que idealizei para a minha vida.

Na altura era funcionária pública e estava a tirar o curso superior de Solicitadoria.  Diante de livros e livros que tinha de ler, fui confrontada com esta metamorfose na minha vida. Todo  e qualquer projeto que eventualmente pudesse estar a planear para o futuro já teria de ser revisado.

Quando nos dizem que podemos ficar cegos de um dia para o outro, isto quer dizer que vamos ter diante de nós uma dificuldade acrescida pela falta de um dos sentidos mais essenciais do ser humano.

No início fiquei como que diante de uma porta que se fechava, vendo outra abrir que não esperava que abrisse tão cedo.


A porta que se fechava era a visão… E a porta que se abria chamava-se “baixa visão”. Mas afinal o que é a baixa visão?

Só aos poucos compreendi, que a cegueira progressiva é como que uma grande montanha que está à nossa frente, a que chamam baixa visão.

Esta montanha está ali ao meio do nosso caminho de vida. Diante desta montanha só nos resta duas opções: ou galgamos a montanha,  e nos readaptamos gradualmente com a baixa visão, ou então deixamo-nos estar ali parados à espera que a cegueira nos leve aonde ela nos levar, sem nos importarmos mais com os nossos objetivos de vida.

Sim, é mais fácil ficar ali numa espécie de elevador, deixando-nos ir pela dependência progressiva dos outros e das situações, ao sabor de um destino inevitável que já nos derrotou.


Por isso, temos de estar assim como que cientes de uma realidade que é irrevogável: - Estou a perder a visão!

Nos primeiros tempos, passei por uma espécie de luto, que na altura não percebia muito bem. Todo o meu corpo chorava diante desta perda irrevogável.

É preciso mesmo fazer todo este luto, passar por toda esta perda, e da forma mais intensa possível, pois não se pode guardar dentro de nós tamanha tristeza e seguir em frente.


É preciso fazer este enterro definitivo de uma tal visão que antes tínhamos nos anos anteriores. É preciso sepultar certos preconceitos que nos fazem crer que perder a visão vai nos deixar dependentes dos outros para o resto de nossas vidas, pois já não vamos conseguir fazer as coisas como antes fazíamos. Sim, não as podemos fazer como antes fazíamos mas as podemos fazer de uma maneira adaptada às nossas limitações visuais.

É preciso colocar diante de nós toda esta verdade para que possamos reconstruir a nossa história diante desta montanha da baixa visão que nos caiu assim ao meio do nosso caminho.

É uma subida difícil, mas não necessariamente impossível de percorrer.

O primeiro ímpeto que me ocorreu é que devia me abstrair de toda a realidade, e que já não podia mais nada por mim e nem pelos outros.


Mas isso é um degrau que nos faz descer ainda mais, fazendo a montanha subir e tornar-se ainda mais alta.

Enquanto perdi tempo a olhar para mim mesmo, perdi a oportunidade de refazer estes conceitos sociais que me fazem crer que uma pessoa com deficiência visual perde a sua autonomia.

Ao mesmo tempo, comecei a agarrar-me a quatro pilares que fizeram e fazem parte da minha readaptação ao longo destes últimos anos.

No ano passado quando participei da terceira edição do Congresso Online Internacional de Inclusão e Reabilitação da Pessoa com Deficiência Visual promovido pelo Portal da Deficiência visual, escolhi o tema: “Os meus gatos e os quatro pilares que sustentam a minha readaptação como deficiente visual”.

Fiz um vídeo para este seminário, e encontra-se disponível um e-book que pode ser baixado gratuitamente que coloco à disposição de quem quiser ler.

Na verdade, todo este artigo acerca dos gatos e dos quatro pilares que me sustentam a minha readaptação como deficiente visual foi apenas um pequeno degrau. Todos estes quatro pilares estão a crescer, de dia para dia, pois os alicerces de uma readaptação são um processo em contínuo crescimento.

Falar de readaptação é falar de crescimento. E por isso, nos próximos artigos irei aprofundar ainda mais estes quatro pilares, e como eles foram imprescindíveis na minha readaptação como deficiente visual.

Até o próximo artigo e se gostou do que leu ou interessa-se por este assunto, siga-me neste blogue e nas redes sociais. Deixo abaixo os respetivos links. Obrigada.

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sábado, 21 de julho de 2018

Usar uma bengala é um passo a frente!



Nos dias 29 e 30 de maio de 2018, mais uma vez o Centro de Reabilitação de Areosa realizou os dias abertos à comunidade com várias iniciativas, sendo o dia 29 especialmente direcionado para a deficiência visual.


A abertura deste evento foi um grande momento musical com Eduardo Santos Trio, bem como a presença do diretor do Centro de Reabilitação de Areosa Dr. Afonso Lobão a dar as boas vindas a todos, especialmente às entidades públicas convidadas e colaboradores.


O tema deste ano foi “Os loucos anos 20” e os alunos do Centro fizeram um desfile de moda inspirado neste tema que culminou na coreografia: “Charleston”.


Houve a apresentação da bengala eletrónica (Doutor João Barroso professor associado da UTAD) e também a apresentação do "talkback" (Bib. Mun. de Vila Verde por Abílio Guimarães).


A meio da tarde, a gargalhada invadiu o centro com um momento descontraído na apresentação da peça "As Padeiras de Valongo" (Associação Cultural e Recreativa Fora d Horas).


Não faltou as várias exposições de arte e artesanato à venda e feito pelos próprios utentes.


Particularmente, o que mais me chamou a atenção foi a Exposição “História da Bengala Branca” em que contava o percurso do uso da bengala ao longo dos anos e não faltou a bengala verde que, a meu ver, foi um grande passo na identificação da baixa visão.


Ao percorrer esta exposição deparei-me com a realidade da deficiência e o seu posicionamento ao longo dos anos. Houve tempos em que se julgava a deficiência física como necessariamente deficiência mental, mas felizmente, as próprias pessoas com deficiência física foram se integrando e reivindicando a sua posição na sociedade.



Deixo aqui um agradecimento ao Centro de Reabilitação da Areosa, especialmente ao professor Pedro que me apresentou a Bengala Verde há uns três anos atrás, e desde então, a minha própria posição perante a deficiência visual mudou.


Quando resolvi contactar o Centro de Reabilitação da Areosa e pedir ajuda na minha readaptação perante a deficiência visual, não imaginava o que tanto iria aprender e conhecer neste serviço público totalmente gratuito, com professores e utentes que ao partilharem as suas experiências, tanto me apoiaram neste percurso difícil da perda da visão.


E também nesta exposição lá estava a bengala verde e foi impressionante ler as histórias que ali estavam representadas.


Claro que nem sempre a bengala foi assim leve e fácil de manejar como agora se sente nas mãos. Já houve tempos em que se tinha de improvisar, e várias histórias ali se contaram nos placares da exposição com fotografias que nos interrogam acerca do que foi e é a deficiência, bem como o seu percurso ao longo do tempo.


Entre estas histórias estava a história de um carrinho de compras que foi a bengala de alguém. 

Este alguém fui eu mesma.

Mas esta história deixo para contar mais em pormenor no meu próximo artigo, porque afinal isto de usar o carrinho, na verdade, era a minha vontade de esconder que já não via o suficiente. 

Para além da vergonha de se usar uma bengala de cegos quando ainda não se é cega totalmente, há a incompreensão do público  em geral, ainda não esclarecido, acerca desta distância entre a cegueira total e a baixa visão.

E foi assim que a Bengala verde veio esclarecer um pouco esta questão.

Por quê a bengala verde é assim tão importante neste esclarecimento?

Ainda esta semana, quando fui ao supermercado aqui onde moro, estava a pagar as minhas compras, e a menina do caixa perguntou-me:

-A senhora usa a bengala porque tem problemas de equilíbrio?

Respondi-lhe que não era isso, mas que eu usava a bengala porque via pouco. 

Perante isto de “ver-se pouco”, de imediato a menina da caixa, devido certamente à sua falta de informação sobre o que é baixa visão, disse-me:
- Então porque não usa óculos?

Respondi-lhe que era deficiente visual, e isso nada tem a ver com usar óculos ou não, com usar mais ou menos graduação. E por isso usava uma bengala verde que se destinava a identificar exatamente as pessoas com baixa visão como eu.

Infelizmente, ser-se deficiente visual é um degrau bem mais acima disto de usar uns óculos por causa da graduação, e só compreende bem quem passa por isso …



E assim a minha bengala verde conta esta história todos os dias, quando desafia os outros a pensarem exatamente nisto tão esquisito de baixa visão, que nada tem a haver com usar óculos ou não, e que para andar em segurança, usa uma bengala parecida com a bengala de cegos…


A história da bengala branca continua, e fez-se verde por causa da baixa visão, e cada vez mais, alguns dos preconceitos e mentalidades acerca da deficiência visual, desmitificam-se, a partir de quem avance e dê um passo a frente!

Termino este artigo com esta placa que identifica o "Largo da Bengala Verde" no Centro de Reabilitação de Areosa. Isto significa o quanto aqui encontrei o respeito pelo meu tipo de deficiência, recebendo então a ajuda adequada e direccionada para a baixa visão.


Foi aqui e com esta bengala verde, que me libertei do uso do tal carrinho de compras, pois optar por usar uma bengala, não sendo totalmente cego, é o dar um passo mais além, muito além da deficiência  ... 





sábado, 28 de abril de 2018

Temos de ser médico de nós mesmos!




Quando em 2013, estava à espera de ser atendida no serviço de Urgência de um Hospital, depois de vários médicos me verem, e passar por exames de sangue, raio x e tac, eis que uma senhora de uma certa idade, a idade certa de quem já viveu o suficiente para aprender com a vida, a meio de uma conversa de doentes que esperam os seus veredictos, ali ao meu lado, me disse quase a cochichar no ouvido:

- Vou lhe dizer uma coisa, precisamos dos médicos, sim, dos seus tratamentos, das suas prescrições; mas eles sabem mais dos livros de medicina, enquanto nós é que sabemos do que realmente sentimos. Por isso, temos é de ser médicos de nós mesmos, se nos quisermos ajudar na descoberta do que realmente precisamos para nos sentirmos melhores.

Quando ouvi este comentário “ser médico de nós mesmos” por um instante, achei que isto era um bocado difícil de aceitar nos tempos de hoje, com tantos avanços na medicina, e seus tratamentos e exames cada vez mais sofisticados.

Uma dor de cabeça cura-se com tal comprimido e já está. Se quebrar uma perna, engessa-se e já está! Se tiver algo mais sério, opera-se, tira-se e pronto.

Foi com essa mentalidade confiante nos médicos e na sua medicina, que me deixei rapidamente operar a um cancro na tiróide, quando o que mais me interessava era inscrever-me na faculdade na semana seguinte.

Quando me disseram que eu tinha cancro, pensei que isso de ter doenças assim, com as tecnologias que hoje existem, basta lançarmos-nos nas mãos dos médicos cegamente, e seguir a minha vida em frente, pensar em outras coisas mais importantes, pois a batalha da doença já está ganha.

No entanto, ali estava no hospital, passados alguns meses, a ter sintomas uns quanto estranhos, que os vários médicos, que procurei, não sabiam diagnosticar.

Por vários meses, busquei médicos de vários hospitais, clínicas particulares, viajando quilómetros à procura de uma prescrição ou tratamento milagroso para solucionar o que eu tinha.

Ali estava naquele hospital, com a minha audição alterada, a ver reflexos à minha volta, sentindo-me desequilibrada ao andar, fugindo da luz e de todo o barulho.

E para além disso, por vezes, a incompreensão dos que nos rodeiam, dói  ainda mais… Parece que estamos a fazer fitas:

- Fecha-me a janela que está muita luz aqui dentro! – assim dizia aos meus colegas de trabalho, enquanto estava angustiada, a lidar com algo, que até então não me estava diagnosticado. E eles, riam e julgavam-me meia louca ou com mania de doença.


A luz que eu amava! ... Ah, como gostava da luz do sol, de andar ao ar livre, andar desde as mais frescas horas do dia, admirar este sol magnífico… Mas, agora a luz me cegava, não me deixava ver, e parecia estar a ficar louca, com depressão, com sei lá o que eu tinha, e que os médicos não sabiam explicar…

Foi complicado andar assim, como que às cegas, de médico em médico, e parecia que estava a ter uma crise do tal stress que é sempre o culpado quando não existem diagnósticos científicos mais acertados.

Quando finalmente um médico me disse que poderia estar a perder a visão, que esses sintomas eram os primeiros na progressão de uma cegueira por retinose pigmentar, ousei perguntar:
- E o que posso fazer, tenho de fazer novos óculos, existe tratamento?

Foi então que ouvi a sentença:
- Não, neste momento, só esperar que a progressão da cegueira não seja tão rápida!
- Mas, quando vou ficar cega?
- Não se sabe, talvez daqui a alguns dias, ou meses, ou anos, difícil dizer… apenas que a cegueira vai chegar, sim, algum dia, e nada há a fazer, neste momento…

E assim saí sem nada, a não ser eu mesma. Estava só!


Não acreditei... Deve haver outra resposta médica, outro tratamento… E ainda andei por vários meses, a ir de um lado ao outro, à procura de quem me dissesse que sim, que havia qualquer coisa que pudesse fazer…

Mas não!

Ou talvez sim, com tais lentes amarelas, adquirir os produtos técnicos caríssimos, inacessíveis à maioria de doentes como eu.

Foi então que a sábia frase da tal senhora me foi batendo na cabeça:

“Temos de ser médicos de nós mesmos.”

Isto de ser médicos de nós mesmos, nada tem a haver com esquecermos os médicos e os seus tratamentos convencionais.

Isto de “ser médicos de nós mesmos” vai muito mais além.

Já dizia o filósofo Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo!”

Parece fácil nos conhecermo a nós mesmos, mas é exatamente isso que temos de fazer, quando tudo o que nos parecia sólido e bem seguro, nos começa a cair à nossa frente.

Quando alguém nos diz que a nossa visão tem um prazo de validade incerto, é o mesmo que dizer-nos:
- Qualquer dia, acordas e já não vês nada!

E a primeira coisa que nos vem à cabeça é isto:
 - Então, nada mais importa!


Desistir é sempre a forma mais fácil de prosseguir. 

Quando desistimos, deixamos que outros nos levem. Quando desistimos, somos o que os outros desejam de nós.

- Ah, coitada, vai ficar cega! Não tens sorte! Só te falava agora isso! - Diziam-me alguns conhecidos a quem relatava a minha fatalidade.

Palavras vazias, sentenças de prisão perpétua que se unem à sentença de morte dos médicos já decretada e irrevogável: - Vais ficar cega!

Temos de ser médicos de nós mesmos!

Fazer um autoconhecimento do que somos, do que queremos, do que temos e do que não queremos perder!

Sim, fiz o meu luto, chorei muito e fiz toda a birra que qualquer um tem direito diante das sentenças propostas.

Tenho de ser médico de mim mesma. - Insisto e não desisto!

E foi assim que levantei a página escrita por médicos e amigos da catástrofe iminente, e ousei escrever eu mesma nova página.

Lancei-me eu mesma a desbravar pela net e livros, conhecer outros, como eu, que já andam nestas lidas da cegueira, e que bem sabem do que isto é, no real e concreto do dia a dia.

Sou médica de mim mesma e não desisto!

Posso ficar cega, posso ficar na escuridão das formas e cores, mas sempre há algo a fazer, com este resto que me está ainda nos olhos…

E depois, vê-se, nem que seja com as mãos…


Existem tantos interesses que rondam a atual medicina, com as suas teorias e preconceitos, ditando quem tem direito ou não de viver. 

Bons exemplos disso é o atual caso "Alfie" e a pírula do cancer... Coloco ao fim deste artigo, os links das notícias que se referem a estes casos...

Nestes últimos anos deparei-me com estes e outros tantos casos de diagnósticos e tratamentos, uns convencionais e outros tantos, supostamente dados como não provados cientificamente, mas na vida real,  mais eficazes.

Por vezes, a própria natureza nos oferece a cura, mas há uma tendência comercial que a embala e modifica, para dar mais lucro e causar mais impacto comercial.

Infelizmente, a cura não é rentável economicamente. A doença gera milhões de lucros em exames, tratamentos e medicamentos.

A quem sofre, resta a opção, mesmo que silenciosa.

Tenho eu de ser médica de mim mesma, e optar, ler todas as entrelinhas, e julgar se vale a pena as propostas de tratamento que vou conhecendo aqui e ali.

E quando digo “tratamento” digo apenas, tentar parar a progressão desta cegueira que me come a visão aos poucos, sem ser percetível.

Quando se perde a visão por retinose pigmentar é como fechar a visão de dentro para fora. Quem me vê, nada nota. Apenas eu bem sei o que sinto e vejo, o que passo quando não vejo, ainda tendo de lidar com esta falta de informação acerca da baixa visão e do que a bengala verde vem dizer a esta nossa limitação que ninguém sabe, só nós, que passamos por isso.

Por isso, há que ser médico de nós mesmos!



Atenção: Este artigo reflete a minha opinião pessoal e partilha de vida como deficiente visual.  "Ser médico de nós mesmos" não significa esquecer a medicina convencional ou opor-se a tratamentos. Não tenho interesse em prescrever tratamentos ou dar conselhos médicos. "Ser médico de si mesmo" é um convite ao conhecimento de nós mesmos, aceitando as nossas limitações, não desistindo de lutar, aceitando a readaptação à cegueira progressiva. Para mim, usar a bengala verde foi o meu primeiro passo nesta aceitação. A cada um, fica o direito de opção!

Conforme prometido, deixo abaixo os links que foram indicados neste artigo, mas existem outros, que me interrogam quanto às certezas da medicina... E por isso, não devemos desistir, nem que seja perante diagnósticos irrevogáveis. Porém, cada qual tem a liberdade de optar entre prosseguir ou não!

www.jn.pt/mundo/interior/morreu-o-bebe-alfie-alvo-de-batalha-judicial-pelo-seu-tratamento

pt.aleteia.org/2018/04/27/de-charlie-para-alfie-pais-do-bebe-morto-em-2017-se-solidarizam-com-tom-e-kate/

gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2017/05/como-esta-o-garoto-de-farroupilha-que-lutou-para-tomar-a-pilula-do-cancer-9784215.html

CPI conclui que houve erros graves em pesquisa sobre a pílula do câncer



(Texto e imagens de Rosária Grácio)